Captulo 2
Modelo psicanaltico
Wagner da Rocha Fiori 
2.1 Freud e a Psicanlise  o trabalho inicial 
Um dos marcos que o sculo XX deixar para a posteridade  a psicanlise. Sculo de exploraes e 
conquistas, marcado pelas viagens espaciais, pela fisso e fuso do tomo, traz tambm a descoberta do 
inconsciente como etapa significativa da busca que o homem realiza  procura de si mesmo. No se pode 
dissociar a figura de Sigmund Freud da origem e consolidao do sistema psicanaltico. Lionel Trilling, ao 
resumir e organizar a imensa biografia de Freud deixada por Ernest Jones, diz em sua introduo que, apesar da 
existncia de grandes nomes na psicanlise entre os colaboradores iniciais de Freud, nenhum deles trouxe 
qualquer contribuio essencial  Teoria Psicanaltica. A nica exceo  feita ao papel desempenhado por 
Josef Breuer. 
Freud nasceu em Freiberg, Morvia, em 1856. Ingressou na Universidade de Viena em 1873, aos dezessete 
anos, tendo sido aprovado nos seus exames mdicos finais em 1881. Sua permanncia na universidade foi 
prolongada, no por dificuldades pessoais, mas pela imensa curiosidade cientfica que o levava a acompanhar 
os cursos de grandes cientistas e pensadores que l se encontravam. Em particular, os cursos de filosofia 
dados por Brentano, aos quais Freud comparece por trs anos, daro importante base humanstica para a 
construo da psicanlise. Com sua formatura e a perspectiva do casamento, Freud  obrigado a deixar 
parcialmente a pesquisa e dedicar-se  clnica mdica. Passa por vrias enfermarias, j sendo perceptvel como 
seus interesses se organizam na direo de sua futura teoria. Dedica-se assiduamente  psiquiatria, para 
terminar concluindo que os conhecimentos existentes no eram significativos. No Departamento de 
Dermatologia interessa-se pelas conexes entre 
II 
a sfilis e vrias molstias do sistema nervoso. Durante este perodo inicial de carreira, desenvolve ainda uma 
nova tcnica para a colorao de tecidos nervosos pelo cloreto de ouro e lana as bases para a utilizao 
clnica da cocana como anestsic local. Nas dcadas de 1880/1890 Freud fixa-se como neurologista de 
renome. Introduz explicaes funcionais, correlacionando reas motoras, acsticas e visuais do crebro. Seus 
trabalhos sobre a afasia, paralisias infantis, hipertonias nos membros inferiores em enurticos, bem como o 
trabalho final sobre paralisia cerebral infantil j lhe assegurariam um lugar histrico na medicina. 
O interesse de Freud pela psiquiatria, e particularmente pela histeria, o leva a conseguir uma bolsa de estudos 
para estudar com Charcot, em Paris. Este psiquiatra havia se notabilizado por seus estudos e trabalhos com 
pacientes histricas. Seu prestgio havia reabilitado a utilizao mdica da hipnose. Charcot descobrira que 
atravs da hipnose poderia eliminar temporariamente a manifestao de sintomas histricos. Descobrira 
tambm que, atravs da hipnose, sintomas aparentemente histricos poderiam ser criados artificialmente em 
suas clientes. Freud acompanha seus seminrios e sua descoberta de que os fenmenos histricos e a hipnose 
constituam um mesmo processo. As perturbaes que assumiam aparentemente dimenses fsicas no eram a 
expresso de um foco lesional, mas sim a manifestao de um processo sugestivo, em geral traumtico, que 
desencadeava a sintomatologia fsica. Na verdade, a teoria pessoal de Charcot era mais fsica que funcional. 
Para ele a histeria era uma incapacidade congnita de integrar funes psquicas. Freud usa uma boa imagem 
para representar a teoria de Charcot, comparando a histeria a uma mulher sobrecarregada de pacotes, que no 
lhe cabem nos braos. Um deles cai e, ao abaixar-se para apanh-lo, outro se precipita. Ou seja,  como se o 
psiquismo, inatamente frgil, sempre apresentasse uma defasagem na coordenao de suas funes. Este 
fenmeno era aparentemente confirmado na prtica clnica. Por exemplo, os sintomas de paralisia dos braos de 
uma histrica poderiam ser suprimidos por sugesto hipntica. Algum tempo depois eles ressurgiam ou, ento, 
a paralisia no voltava. mas outro sintoma fsico ocupava seu lugar. Uma cegueira ou uma crise convulsiva 
substitua a paralisia. Embora a teoria especfica de Charcot no tenha tido utilidade para a psicanlise, as 
correlaes entre processos sugestivos e sintomas de doenas mentais constituiro uma base para o 
pensamento de Freud. 
Os trabalhos de Liebaut e Bernheim sobre sugesto ps-hipntica. realizados na Frana paralelamente aos de 
Charcot, constituiro outro ponto de partida para Freud. Sedimentaro a idia de que 
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existem processos inconscientes, subjacentes e determinantes sobre a conscincia. Num segundo momento, 
estas mesmas idias permitiro a Freud abandonar a hipnose e permitir ao paciente sozinho realizar a busca dos 
eventos traumticos reprimidos. 
O principal colaborador nas idias iniciais de Freud  Joseph Breuer, mdico vienense, mais velho que Freud, e 
que j realizava na ustria pesquisas de tratamento da histeria com a hipnose, ao mesmo tempo que Charcot 
clinicava em Paris. Breuer se encarrega de uma paciente histrica que entrar para os anais da psicanlise com 
o nome de Ana O. Ao ser provocado o sonambulismo hipntico como tranqilizante, a paciente passa a narrar, 
durante a hipnose, uma srie de fatos passados, profundamente dolorosos. Estes fatos no faziam parte do 
conhecimento consciente da paciente. Quando, ao despertar, a paciente pde reconstituir esta etapa do seu 
passado, com o auxlio de Breuer, os sintomas histricos desaparecem. O trabalho de Breuer no tratamento de 
Ana O. passa a ser o primeiro caso clnico a ser tratado dentro do modelo que daria origem  psicanlise. O 
excelente nvel intelectual da paciente  tambm um dado importante que auxilia Breuer a se organizar em seu 
tratamento. Este mtodo de eliminar os sintomas com a retomada de recordaes traumticas passadas, que se 
torna conhecido como Mtodo Catrtico,  pela primeira vez definido e reconhecido pela prpria paciente, que 
o define como a cura pela fala. Ernest Jones chega a definir Ana O., por esta observao, como sendo a 
pessoa que primeiro definiu a tcnica analtica. 
Breuer introduz Freud em suas descobertas, envia-lhe pacientes para serem tratados pelo novo mtodo, 
tornando-se quase que uma espcie de protetor de Freud em seus trabalhos iniciais. Juntos publicam suas 
descobertas, e a colaborao durar at a ruptura ocorrida quando da elaborao da teoria da sexualidade 
infantil de Freud. 
Em linhas muito gerais, estes so os dados iniciais da Teoria Psicanaltica que Freud continuar a construir por 
mais cinqenta anos. Alguns trabalhos sero os organizadores centrais do modelo: 
Os estudos sobre a histeria, escritos com Breuer em 1893-1895; A interpretao dos sonhos, de 1900: 
Psicopatologia na vida cotidiana, de 1901; Trs ensaios para uma teoria sexual, de 1905; os trs casos 
clnicos de 1909-191 1 (O pequeno Hanz, O homem dos rat&s; O Schreber); Os instintos e seus destinos, de 
1915; Luto e melancolia de 1917; Mais alm do princpio do prazer. de 1920; O Ego e o Id. de 1923; Inibio, 
sintoma e angstia, de 1926. Inmeros outros trabalhos complementaro e exploraro 
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as idias centrais, abrindo inclusive a psicanlise para outras reas como a arte, a religio, os movimentos sociais, a 
lingstica. 
O trabalho que presentemente desenvolvemos tem pretenses restritas. Visamos dar apenas uma compreenso bsica da 
psicanlise, necessria para o entendimento evolutivo da afetividade humana.  um trabalho destinado aos cursos de 
Psicologia do Desenvolvimento ministrado nas faculdades de Psicologia, Pedagogia, cursos paramdicos e cincias afins. 
No nos competiria, portanto, quaisquer revises crticas da psicanlise. Neste volume, o primeiro de uma srie de quatro, 
tentaremos estabelecer como surgiram e o que significam os conceitos bsicos da psicanlise. Nossa orientao ser 
estritamente freudiana, por julgar que a est a base fundamental do conhecimento em psicanlise. O texto no ser 
pontilhado de referncias bibliogrficas, ao nosso ver dispensveis neste estgio inicial. Preferimos organizar, ao final, a 
indicao de algumas leituras bsicas de Freud, principalmente dos seus escritos didticos, por nos parecer esta a melhor 
maneira de uma organizao inicial deste conhecimento. Nos trs volumes seguintes, desenvolveremos a evoluo da libido, 
estgio por estgio. A, sim, teremos campo para discusses detalhadas, nas quais incluiremos comparaes com os 
principais continuadores e dissidentes da obra freudiana. 
2.2 Consciente e inconsciente  o modelo topolgico 
Atualmente nos  fcil aceitar a idia da existncia de processos inconscientes. isto no era assim to fcil nas etapas 
iniciais do desenvolvimento da psicanlise. A idia despertou ferrenha oposio, quer dentro dos crculos mdicos, quer 
dos leigos. O prprio Freud reconhece como uma atitude natural humana rejeitar a idia de que somos dominados por 
processos que desconhecemos, quando, na Conferncia introdutria  Psicanlise, de 1916, mostra que a espcie humana 
sofreu trs grandes feridas em seu narcisismo. A primeira foi causada por Coprnico, ao tirar a Terra do centro do universo. 
A segunda, por Darwin que, ao definir A origem das espcies na luta pela vida, tira ao homem a pretenso de ser filho de 
Deus. A terceira  a descoberta do inconsciente, que tira ao homem o domnio sobre sua prpria vontade. 
A descoberta do inconsciente vem para Freud por dois caminhos diferentes e paralelos. De um lado, a experincia clnica 
pioneira de Breuer; de outro, as experincias com sugesto ps-hipntica de Bernheim. Comecemos pelo segundo. Um 
paciente  hipnotizado e, durante o sonambulismo, d-se-lhe a sugesto de que, ao acordar, dever ir para seu lugar. 
permanecer quieto durante cinco minutos. 
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ao trmino dos quais dever abrir seu guarda-chuva, coloc-lo um pouco sobre a cabea, e depois fech-lo. Em 
seguida, o paciente  despertado do sonambulismo. Normalmente ele volta para seu lugar e,  medida em que o 
tempo passa, vai se tornando cada vez mais inquieto, at que, num impulso, abre o guarda-chuva, coloca-o 
sobre sua cabea por um momento e depois o guarda. A pessoa est em geral um pouco constrangida com sua 
atitude. No sabe por que foi levada a fazer isto, mas  bastante lcida para perceber o ridculo da situao, O 
hipnotizador a aborda, questionando o porqu de sua atitude. Imediatamente uma ou mais explicaes 
aparentemente lgicas surgem, tentando explicar o estranho ato: 
achei que poderia estar chovendo e eu j ia sair, ou fui verificar se no estava com defeito para evitar 
surpresa na sada. No consegue recordar o que a teria levado a abrir o guarda-chuva. A ordem faz parte de 
um processo que no percebe, que  subjacente  sua conscincia e que, no caso especfico,  dominante 
sobre a conscincia. A prpria atitude envergonhada nos mostra que o ato foi consumado contra o que o 
sujeito acha que  adequado. Fica ento claramente definida a existncia de dois processos psquicos 
paralelos, um consciente e outro inconsciente, sendo que o inconsciente determina as aes do sujeito, sem 
que este o perceba. 
Alm da caracterizao do consciente e inconsciente, dois outros processos psquicos devem ser 
considerados no exemplo acima, por permitirem posteriormente duas descobertas importantes da psicanlise. O 
primeiro deles  que, apesar de o paciente realmente no se lembrar da ordem que o levou a abrir o guarda-
chuva, se o hipnotizador rejeita suas explicaes iniciais e continua insistindo para que se lembre do que 
realmente ocorreu, parece que num dado momento o paciente faz um grande esforo de introspeco e de 
repente se lembra de tudo. Recorda-se de ter sido hipnotizado, de ter recebido a ordem e de t-la cumprido 
aps o tempo previsto. Sobram ainda ao paciente dois embaraos: no entende por que foi levado a cumprir a 
ordem e no entende como, tendo a sensao de que sempre soubera da ordem recebida, houve um momento 
em que no a recordou. Pode-se dizer que ele sabia da ordem. mas no sabia que sabia, isto no  trocadilho. 
Veremos que um processo similar ir ocorrer com a recordao de eventos traumticos esquecidos. 
O segundo processo psquico curioso no chega a ficar bem caracterizado apenas neste exemplo. Vimos que o 
paciente obedeceu a uma ordem que o deixou constrangido. E, se lhe tivessem ordenado que fizesse algo que 
fosse ferir profundamente seus valores morais? A ordem teria sido cumprida? Certamente que no. A 
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hipnose foi capaz de abrandar um pouco sua censura e at exp-lo a um certo ridculo, mas jamais o faria 
cometer algo profundamente proibido. No cometeria, por exemplo, um crime sob efeito de sugesto ps-
hipntica. Uma paciente feminina no poderia ser levada a desnudar-se por mero efeito de uma sugesto ps-
hipntica, a no ser que ela pessoalmente no se incomodasse com tal procedimento. Normalmente, quando  
dada ao hipnotizado uma ordem que ele no pode cumprir, em geral acorda abruptamente do transe, bastante 
incomodado, e torna-se em seguida resistente a entrar em nova hipnose, O que conclumos  que, se a hipnose 
foi capaz de fazer surgir algumas pequenas atitudes que normalmente o paciente no as teria, quando ele se 
sente ameaado, no s se recusa a cumprir as ordens, como torna-se particularmente resistente ao 
procedimento. Este dado pesar no posterior abandono da hipnose na tcnica de Freud. 
O segundo caminho do estabelecimento do conceito de inconsciente, e o que marca o incio da elaborao da 
psicanlise, vem do atendimento clnico que Breuer propiciou a Ana O. Ela era uma jovem de vinte e um anos, 
dotes intelectuais sempre elogiados pela literatura psicanaltica, e que padecia de um quadro histrico tpico: 
paralisias, perturbaes nos movimentos oculares, tosse nervosa. repugnncia aos alimentos e inclusive um 
acesso de hidrofobia no qual ficou vrias semanas sem beber gua, apesar da intensa sede, s sobrevivendo  
custa de meles. Apresentava ainda alguns estados de alterao psquica, que Breuer chama de estados de 
absence. nos quais dizia coisas fragmentadas, sem que uma coerncia de sentido fosse estabelecida. 
Devemos lembrar que nesta poca a medicina adotava em geral duas atitudes diante da histeria: ou a ignorava, 
tratando os sintomas como mero fingimento consciente, ou ainda presa s idias de Hipcrates de Cs, 
tentava cur-la por alteraes na posio do tero, ou por extrao do clitris. Breuer, ao contrrio, dedicou-
lhe ateno permanente e procurou utilizar-se da hipnose como processo de apaziguamento das tenses. 
Durante uma das sesses de hipnose, Breuer repetiu para a paciente algumas das palavras que ela dissera em 
estado de absence, incitando-a a associar sobre elas. Ana O. passou ento a relatar uma passagem triste, ao 
leito de morte do pai, onde exausta entrou numa espcie de sono acordado, e alucinou ver uma serpente negra 
que surgia para picar o enfermo. Quis afastar o rptil, mas sentiu seu brao paralisado. Ao fixar os olhos em 
seu brao, viu seus dedos se transformarem em pequenas serpentes cujas cabeas, localizadas nas unhas, 
eram caveiras. Assustada, tentou rezar, mas as palavras lhe fugiram, s se lembrando de uma orao infantil em 
ingls. Toda 
a histria foi relatada a Breuer durante a hipnose. Ao despertar do sonambulismo, Ana O. deixara de apresentar 
os sintomas de paralisia que a acompanhavam por mais de dois anos. Idntico procedimento curou-a da 
hidrofobia, ao recordar uma cena em que vira o nojento cachorrinho da bab bebendo gua em uma caneca. 
Nos dois casos percebemos um evento traumtico reprimido, que no faz parte da percepo consciente e que, 
ao ser recordado, traz junto a vivncia de toda emoo anteriormente reprimida. A recordao consciente do 
trauma, com a correspondente descarga de emoes reprimidas, faz com que os sintomas desapaream. 
Os Estudos sobre a histeria, publicados por Freud e Breuer em 1895, constituem o primeiro trabalho de 
repercusso da psicanlise. Algumas concluses, tiradas destes primeiros casos, j definem a relao 
consciente e inconsciente. Fica estabelecida a existncia de uma vida psquica inconsciente, paralela  
conscincia, e que pode ser dominante sobre esta. Estas relaes sero mantidas durante toda obra freudiana. 
A teoria de origem da neurose, elaborada por Breuer, baseava-se nos chamados estados de absence. 
Julgava ele que as histricas seriam sujeitas a estes estados, e, quando dentro deles, a capacidade de 
elaborao de eventos afetivos seria reduzida. Isto significa que, durante o aparecimento destes estados, o 
sujeito no teria condies de absorver ou integrar eventos psquicos dolorosos. Os traumas ento sofridos 
no poderiam ser percebidos pela conscincia. Eles passariam direto para o inconsciente, l permanecendo 
enquistados e sem elaborao. A reao do organismo ao trauma enquistado produziria os sintomas. O doente 
fica ento visto como passivo: no pode reagir ao trauma e tambm no pode, sozinho, elaborar o trauma e 
elimin-lo. A tarefa do mdico seria ento utilizar a hipnose como um bisturi, penetrando no psiquismo e 
criando condies para que o trauma ressurgisse  conscincia, fora do estado de absence, quando ento 
poderia ser experienciado com toda a carga afetiva que no pudera ser vivida na hora traumtica. Esse mtodo 
de tratamento ficou conhecido como Mtodo Catrtico. Freud logo em seguida o abandonar, com o abandono 
da hipnose. 
2.3 Resistncia e represso 
A utilizao do Mtodo Catrtico e Hipntico de Breuer logo traz problemas para Freud. H fracassos nos 
tratamentos e muitos pacientes no conseguem ser hipnotizados. Freud desanima com a prtica mdica da 
hipnose. Talvez pelo grande respeito que ainda devota a flreuer, no questiona a tcnica, mas questiona-se a si 
pr- 
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prio, admitindo-se mau hipnotizador. Particularmente, julgamos que  muito difcil utilizar em relaes 
interpessoais uma tcnica na qual no se confie. A tcnica da hipnose  relativamente simples, e no vemos 
como um bom profissional no conseguiria domin-la. Pensamos que as dificuldades alegadas por Freud j 
demonstram sua descrena para com a hipnose e a abertura para a busca de novas solues. 
Freud ento se recorda dos experimentos de sugesto ps-hipntica a que assistira com Bernheim. O paciente, 
que a princpio no se recordava da ordem do hipnotizador, conseguia relembr-la desde que, diante da 
insistncia do hipnotizador, ele se esforasse para consegui-lo. Freud havia aprendido com Charcot que a 
histeria e a hipnose eram fenmenos similares. Por que no tentar ento com a histeria o mesmo procedimento 
que Bernheim utilizava na recordao da sugesto ps-hipntica? Freud abandona a hipnose e inicia uma 
tcnica sugestiva, onde afirma ao paciente que ele poder se lembrar do acontecimento traumtico sofrido, que 
ele consciente- mente no sabe, mas que est guardado no inconsciente, O procedimento sugestivo 
inicialmente utilizado consistia em afirmar ao paciente que, quando Freud pusesse a mo sobre sua testa, ele se 
recordaria. O procedimento apresenta resultados satisfatrios. As recordaes inconscientes vo emergindo e 
entrando para a elaborao e o domnio da conscincia. Freud verifica que pode prescindir da hipnose e 
mobilizar a colaborao do paciente em seu processo de descobrir o inconsciente. 
Tivesse havido apenas uma alterao tcnica no trabalho, isto quase nada acrescentaria  psicanlise. Mas a 
descoberta de uma nova tcnica quase sempre leva ao conhecimento de novos fatos, a novas reflexes, e a 
mudanas na organizao terica do conhecimento. A utilizao do esforo consciente para a descoberta do 
inconsciente prope vrias questes: Como o sujeito no fora capaz de se lembrar, antes, de um evento to 
importante, o qual acarretava inclusive perturbaes em sua conduta? Por que fora necessrio tanto esforo e 
a colaborao do mdico para que o evento viesse  conscincia? O que impedia o acesso deste evento ao 
consciente? Freud deduz que, se um fato to significativo no podia emergir seno com muito esforo, era 
porque havia uma fora que se opunha  sua percepo consciente. Freud define esta fora, chamando-a de 
resistncia. Ela mantinha o evento traumtico inconsciente, protegendo o indivduo da dor e do sofrimento que 
seriam trazidos junto com seu conhecimento. Quanto maior a dor a ser vivida com a recordao, mais a 
resistncia era mobilizada, tornando-se mais difcil a recordao do trauma. Esta fora, a resistncia, s 
pode ser descoberta e compreendida com o abandono da hipnose. Deixa de haver uma situao onde a hipnose era utilizada 
como um bisturi para remover o quisto traumtico de um paciente inerte. As foras do prprio paciente, as foras de sua 
conscincia, passaram a ser mobilizadas para vencer a resistncia. 
A descoberta da resistncia leva imediatamente a outra questo: 
se h necessidade de uma fora to grande para impedir que o trauma se torne consciente,  sinal de que as recordaes 
traumticas no esto imobilizadas no inconsciente; se a resistncia deve ser aumentada na proporo em que o trauma  
maior, quanto mais doloroso o evento reprimido, maior  a fora que ele deve fazer para se tornar consciente. Se o processo 
no quer permanecer inconsciente,  lcito supor que nunca quis tornar-se inconsciente, e, se assim ocorreu,  porque uma 
fora maior, num momento de crise, mobilizou-se para negar o conhecimento  conscincia. A esta fora que se mobiliza 
para que o indivduo no seja ferido em seus ideais ticos e estticos, que tira da conscincia a percepo de acontecimentos 
cuja dor o indivduo no poderia suportar, Freud chamou de represso. Na prtica clnica o que se observa  o 
aparecimento da resistncia. A represso fica demonstrada como conseqncia lgica da resistncia. 
Os processos psicolgicos parecem ocorrer sempre paralelamente aos processos fisiolgicos ou biolgicos bsicos. 
Dizemos que a teorias psicolgicas so anaclticas (suportadas) ao biolgico. Psicologicamente, se algum passa por um 
evento to doloroso, que sente no poder suport-lo,  um processo de autoproteo reprimir 
o acontecimento. Ao nvel fsico, o processo  similar ao psquico. - Se algum pisar em um espinho, sentir dor. Mas, se 
um traumatismo 
lhe arranca o p, possivelmente no sentir dor em um primeiro momento. Se a dor  um elemento adaptativo, necessrio 
para que 
o organismo se proteja,  exatamente a anestesia, ou seja, a ausncia temporria da dor que permitir ao organismo tentar 
sobreviver diante da situao fortemente traumtica. Tivemos a oportunidade de acompanhar o caso de um jovem 
motociclista acidentado. Houve exatamente a amputao do p. Na hora o jovem nada sentiu. Teve foras e controle para 
providenciar um torniquete com a manga da camisa, antes de desmaiar. O socorro demorou algum tempo, e seu 
procedimento lhe salvou a vida. Tivesse ele ficado se contorcendo em dores desde o incio, possivelmente no se teria 
salvado. Assim tambm ocorre com os infortnios psquicos. A dor pode ser suportada at um certo limite. Diante da 
perspectiva de uma grande dor, os acontecimentos so reprimidos e escapam  percepo consciente Mas a represso no 
os elimina. O p amputado 
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no doeu na hora, mas doer depois. O trauma reprimido estar permanentemente tentando ocupar a 
conscincia. A resistncia o impedir mas, como conseqncia da luta, teremos a formao dos sintomas 
neurticos. 
A descoberta da resistncia e da represso marca a ultrapassagem de um modelo esttico do trauma, para um 
modelo dinmico, de jogo de foras. O doente no  mais um fraco que enquistou um trauma sem process-lo. 
Agora  um forte que se mobilizou para afastar a angstia. A sua aparente fraqueza decorre da imobilizao 
dada pelo jogo de foras contrrias que existe em seu interior. Esta luta interna consome suas energias, 
decorrendo da o seu rendimento externo inferior.  uma caracterstica de o neurtico apresentar um 
rendimento real inferior s suas capacidades potenciais. A descoberta da resistncia e represso marca tambm 
a introduo do conceito de mecanismo de defesa. 
2.4 As estruturas dinmicas da personalidade 
Embora pudessem explicar a dimenso do conflito interno, os conceitos de consciente e inconsciente no 
puderam responder a algumas questes levantadas. Por exemplo, se por motivos ticos e estticos, o 
consciente no podia suportar a percepo de uma vivncia e mantinha permanentemente a resistncia 
bloqueando esta percepo, isto poderia ser visto como uma indicao inexplicvel de que o consciente sabia 
o que no queria saber. No se pode considerar inadequado algo que no  conhecido. Aceitar que o 
consciente era o fator desencadeante da represso era o mesmo que aceitar que o reprimido era 
conscientemente conhecido. Como explicar este processo? De onde partia a represso? E onde estavam 
localizadas as ditas aspiraes ticas e estticas que desencadeavam a represso? Seriam conscientes ou 
inconscientes? Ou ambas? 
Por volta de 1920 Freud faz o que em seu Vocabulrio de psicanlise, Laplanche e Pontalis chamam de a 
viragem do modelo psicanaltico. Os conceitos tpicos de consciente e inconsciente cedem lugar a trs 
constructos psicanalticos que constituiro o modelo dinmico da estruturao da personalidade: Id, Ego e 
Superego. 
2.4.1 O Id 
O Id  o reservatrio de energia do indivduo.  constitudo pelo conjunto dos impulsos instintivos inatos, que 
motivam as relaes do indivduo com o mundo. O organismo, desde o momento do nascimefito,  uma fonte 
de energia que se mobiliza em direo ao 
mundo, buscando a satisfao do que necessita para seu desenvolvimento. O conceito de instinto parece 
explicar bem o mecanismo que se estabelece. Em funo de seu desequilbrio homeosttico, ou da necessidade 
do estabelecimento de relaes evolutivas, o organismo sente uma carncia. Esta carncia mobiliza as energias 
do organismo em direo  sua satisfao. Mas, para que se satisfaa,  necessrio que o organismo tenha um 
objeto que corresponda a essa necessidade. Por exemplo, diante da fome,  necessrio que se organize uma 
imagem de alimento. Esta imagem  o que chamamos de objeto do instinto. E qual a relao estabelecida entre a 
necessidade e seu objeto? No caso da fome, podemos dizer que  a incorporao. A incorporao fica assim 
definida como o alvo do instinto. Logicamente, o exemplo  simplificado. A relao no  apenas linear e direta. 
Quando a criana fantasia a imagem do seio para sua saciao, no  apenas a fome que  trabalhada, mas 
tambm a ligao afetiva com o seio, a construo da figura da me, as relaes de bom e mau estabelecidas, a 
adequao do processo me-criana, a confiana no mundo exterior, etc. 
Nos trabalhos iniciais, quando Freud falava do inconsciente, definia-o como o conjunto dos desejos 
reprimidos, com as relaes que estes estabelecem. Neste aspecto, o conceito anterior de inconsciente vai ser 
abarcado pelo de Id. Mas o Id no ser apenas isto. J vimos que ele  a fonte da energia psquica, alm de ser 
o gerador das imagens que organizaro a canalizao destas energias. A este mecanismo de gerar imagens 
correspondentes s pulses, Freud chamar de processo primrio, constituindo-se ele no mecanismo 
fundamental de manifestao do Id. 
2.4.1.1 Caractersticas do Id 
1.)  o responsvel pelo processo primrio. Diante da manifestao do desejo, forma, no plano do imaginrio, 
o objeto que permitir sua satisfao. Um exemplo ilustrativo  o sonho, onde os desejos vo tentando uma 
satisfao alucinatria ao nvel das imagens geradas. J vimos que um desejo corresponde a uma carncia que, 
ao ser satisfeita, gerar prazer. Os desejos no podem satisfazer_se com objetos apenas alucinatrios, mas  
necessrio que uma imagem, ou seja, um objeto alucinatrio seja gerado, para que 
o Ego, responsvel pelas relaes de realidade, possa satisfaz-lo na prtica. 
2.a) Funciona pelo princpio do prazer. Busca a satisfao imediata das necessidades. O processo primrio  
sua tentativa 
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alucinatria de satisfao imediata. No questiona qualquer aspecto da adaptao do desejo  realidade fsica, 
social ou moral. As interdies viro do Ego ou do Superego. O ld sempre manter o modelo de querer, e de 
querer a qualquer preo. 
3.) Inexiste o princpio da no-contradio. Como no  dimensionado pela realidade, podem estar presentes 
desejos ou fantasias mutuamente excludentes dentro da lgica. Voltemos aos sonhos, que so a melhor 
maneira de exemplificarmos os processos do Id. Neles podemos estar mortos e vivos ao mesmo tempo. 
Podemos entrar no fogo, e o fogo ser frio. Podemos nos ver em dois lugares ao mesmo tempo.  medida em 
que o princpio da no-contradio inexiste, todas as coisas so possveis ao nvel do Id. 
4.)  atemporal. A nica dimenso da vivncia  o presente. No h passado ou futuro, mas existe a elaborao 
de uma dimenso nica, vivida como presente. Reviver (recordar)  o mesmo que viver. Nos sonhos, a 
recapitulao de um acidente  vivida como o prprio acidente. Nos sonhos, um projeto de realizao futura  
vivido como realizao presente. Nos prprios devaneios que temos, ou seja, quando sonhamos acordados, 
transformamos em realizaes presentes os desejos com perspectivas de realizaes futuras. Fantasiamo-nos 
dentro do carro que gostaramos de comprar. Quando compramos um bilhete de loteria, surpreendemo-nos, 
fazendo planos para a utilizao do dinheiro, como se j o tivssemos ganho. 
5a) No  verbal. Funciona pela produo de imagens. Temos utilizado os sonhos para exemplificar o Id. Mas 
quando nos recordamos de um sonho, j efetuamos uma elaborao secundria sobre ele, ou seja, j o 
reduzimos ao domnio da linguagem. Em sua forma original, os sonhos so basicamente plsticos. As imagens 
so criadas, fragmentadas, deslocadas, combinadas, de forma a se adequarem  satisfao do desejo. 
6.a) Funciona basicamente pelos processos de condensao e deslocamento, que so os processos bsicos 
do inconsciente. Na condensao, agrupamos, dentro de uma imagem, caractersticas pertencentes a vrios 
processos inconscientes. No deslocamento, as caractersticas de uma imagem so transferidas para outra, com 
a qual o sujeito estabelece relaes como se fosse a primeira. A diferenciao  enquanto modelo, porque 
dentro do funcionamento real os processos de condensao e deslocamento so superpostoS. Vejamos um 
exemplo de cada processo. O primeiro  mitolgico, e o segundo, tirado dos casos clnicos de Freud. 
Condensao 
A imagem da gua  um smbolo onrico considerado universal e simbolicamente ligado s fantasias de nascimento. Sonhar 
com gua  evocar fantasias ligadas ao nascimento ou ao retorno  segurana do tero materno. Estudaremos melhor depois 
uma relao que agora apresentaremos pronta: diante de um trauma emocional, tendemos a regressar a modelos infantis de 
funcionamento psicolgico. Quanto maior a perspectiva da angstia numa frustrao, maior a regresso que em geral 
efetuamos, como um processo defensivo. E o ltimo estgjo de uma regresso formal e temporal que podemos efetuar  a 
volta  tranqilidade do tero materno. Sandor Ferenczi, psicanalista colaborador inicial de Freud, chega a levantar em seu 
livro Thalassa  Psicanlise das origens da vida sexual, a hiptese de que a regresso transcende a prpria me e vai 
at s origens da vida, o que seria um sentido mais profundo do retorno ao meio lquido. Ficamos por enquanto com esta 
imagem do retomo  figura da me, atravs do retomo em fantasia ao meio lquido inicial. 
Uma outra fantasia original do homem  o medo de ser destrudo pela mulher. Para isto podemos buscar uma relao 
ontolgica. Em suas iras, a criana pequena ataca em fantasia o corpo da me, e isto poder gerar um retorno persecutrio 
onde a imagem feminina ficar como um elemento prestes a destru-lo. Como a agressividade inicial da criana  oral, a 
fantasia decorrente ser um temor de ataque oral. Combinado com as fantasias ligadas ao temor de castrao, isto produzir 
no homem um temor de ser castrado por uma vagina dentada ao penetrar na mulher.  lgico que a imagem da vagina 
dentada no aparece literalmente ao neurtico, mas aparece simbolizada. Veja-se um excelente exemplo desta fantasia no 
livro de Hanna Segal, Introduo  obra de ?yIe1a,zieKLi,K1eit. Se estas fantasias existem ontologicamente, tambm 
o existem filogeneticamente. As mulheres dominavam o meio de produo estvel, a agricultura domstica, e a fertilidade 
masculina era desconhecida. A mulher era a nica responsvel pela existncia dos filhos e continuidade do grupo. Os 
homens eram elementos secundrios no grupo social. Veja-se que a esttuas primitivas de deuses so basicamente 
femininas, em oposio s atuais divindades masculinas de nossas religies contemporneas. O papel da mulher fica 
ameaado, diante da progressiva importncia econmica do homem, e principalmente com a evoluo das guerras e da 
escravido, e com a descoberta da fertilidade masculina. Parece que foi uma ltima defesa do grupo feminino em tentar 
controlar o domnio masculino, ritualizar a fertilidade do homem em festas religiosas. Nestes rituais, um 
22 
homem era eleito o representante da fertilidade, e, aps fecundar a rainha do grupo, ou suas virgens, ele era 
literalmente devorado pelas mulheres, ou era morto e seu sangue espargido pela terra para despertar sua 
fertilidade. Tal qual no ritual de acasalamento da abelha rainha, ou da aranha, o macho era destrudo aps 
cumprir seu papel biolgico-simblico. Vemos que h, nas origens filo e ontogentica do homem, traos que 
levam a estruturar uma fantasia bsica de temor, onde a mulher aparece como devoradora. 
Uma terceira relao que  fundamental  a satisfao orgstica 
que a mulher representa para o homem. O prazer, sensualidade, 
a beleza so elementos a,qpico que dirigem o homem em direo 
 mulher. A expectativa orgastica  o ponto culminante da atrao. 
Este terceiro fator  to evidente que no necessita maior anlise. 
Estamos verificando que h vrias fantasias bsicas que surgem no homem em sua relao com a mulher: 
regresso-nascimento- gua, fertilidade-destruio-canibalismo, atrao-prazer-sexualidade. O inconsciente 
formula ento uma imagem que condenso todos estes aspectos e surge a figura mitolgica da sereia ou da iara. 
 a mulher que atrai, que seduz com seu canto e sua beleza, que desperta a sensualidade masculina e que leva 
sua vtima para a destruio dentro dgua, onde perece afogada (simbolicamente devorada pelo mar) ou  
literalmente devorada pela prpria mulher, como ocorre com nossa mitolgica iara.  inclusive muito 
significativo que esta fantasia surja na mitologia grega, na nrdica, bem como entre os grupos indgenas da 
Amrica do Sul. A iara e a sereia se equivalem. Isto parece indicar que as modalidades de fantasias 
condensadas nestas figuras so caractersticas universais, manifestaes arquetpicas do inconsciente 
filogentico da espcie. 
Deslocamento 
Freud acompanhou e orientou, atravs do pai, a psicoterapia de um garoto de cinco anos, que sofria de uma 
fobia por cavalos. No podia sair s ruas em funo do pnico que a viso dos cavalos lhe despertava. Tenha-
se em mente que  um caso clnico da transio do sculo, e a conduo era de trao animal. No decorrer do 
estudo, fica claro que o temor inicial era de que o pai o atacasse e castrasse. O temor de castrao, de 
ocorrncia normal, tornara-se to forte, no caso do garoto, que a angstia no pde ser suportada. Mas como 
poderia sobreviver um garoto de cinco anos, se o violento temor pelo pai lhe impedisse o convvio familiar? E 
como conciliar to grande temor com o igualmente grande amor devotado ao pai? Em um nvel inconsciente, o 
temor  deslocado do pai para os cava- 
los. melhor no poder sair s ruas, do que no poder ficar em casa, e o amor pelo pai pode ser preservado. Este 
 um exemplo didtico do processo de deslocamento mas, como j vimos, os mecanismos de condensao e 
deslocamento so em geral coexistentes. Vejamos como os dois se combinam neste caso: o pai  uma figura 
grande, tem bigode e possui um pnis grande. Estas caractersticas so abstradas do pai, deslocadas e 
condensadas no cavalo: grande, com focinheira e pnis grande. H deslocamento na transferncia das 
caractersticas e condensao no seu reagrupamento, o que  permitido ao estabelecer a ligao simblica pai-
cavalo. 
7.a) Finalmente, o Id  uma instncia estruturalmente inconsciente. Todos os processos descritos so 
estruturados sem a percepo ou participao do consciente. Devemos frisar que o Id no  o inconsciente, 
mas , em quase sua totalidade, inconsciente. Os desejos oriundos do Id podem ser percebidos pela 
conscincia, quando no sofrem represso. E veremos a seguir que as outras instncias, o Ego e o Superego, 
so em parte conscientes e em parte inconscientes. 
2.4.2 O Ego 
Embora esta estrutura j comece a se configurar nos trabalhos iniciais de Freud, sua organizao mais ou 
menos final fica elaborada com o trabalho O Ego e o Id, de 1923. O Ego surge como uma instncia que se 
diferencia a partir do Id, servindo de intermedirio entre o desejo e a realidade. Diferenciado a partir de uma 
formao instintiva, para Freud, o Ego se estrutura como uma nova etapa de adaptao evolutiva do sujeito. 
Isto o leva a afirmar que o Ego  acima de tudo corporal, ou seja, biolgico. Aqui  interessante notar como os 
pontos de partida de Ereiid Piag so similares nas origens: h uma formao instintiva inicial que se desdobra 
em estruturas mais sofisticadas a partir da elaborao da realidade. 
Imaginemos um beb que tem fome. Ou lhe  imediatamente fornecido alimento, ou ocorre uma violenta reao 
de desespero, expressa pelo choro.  medida em que as relaes com a me sejam satisfatrias, estabelece-se 
uma relao de confiana entre o beb e ela. Diante da fome, ele j pode aguardar um pouco, porque sabe que 
o alimento vir. Pode resistir por alguns momentos sem crise. O rudimento de uma organizao temporal 
comea a se estabelecer. H um agora, com fome, que pode ser suportado, porque h um depois, com 
alimento, que  sentido como certo. Comeam a ser estabelecidas as correlaes entre o desejo e a realidade. 
Progressivamente surgem vagidos diferenciados. Ainda no  
24 
25 
linguagem,  apenas sinal. Mas a me j po e diferenciar os sons que pedem comi,cla, dos gritos de desespero 
e dor. O Ego comea progressivamente a se diferenciar. Diante do desejo, mobiliza-se para que a realidade 
possa satisfazer ao desejo. Havamos definido o Id como o nvel dos instintos, o princpio do prazer, o 
funcionamento pelos processos primrios. Definimos agora o Ego como funcionando pelo princpio da 
realidade e pelos processos secundrios. 
2.42.1 Caractersticas do Ego 
Freud no teve a preocupao de delimitar pedagogicamente as caractersticas do Ego. De seus vrios 
trabalhos, podemos enumerar as seguintes caractersticas como constituintes do Ego: 
l.) D o juzo de realidade, funcionando pelo processo secundrio, O Id d o nvel do desejo, o nvel do querer, 
independentemente das possibilidades reais de o desejo ser satisfeito ou no. O Ego partir do desejo, da 
imagem formada pelo processo primrio, para tentar construir na realidade caminhos que possibilitem a 
satisfao do desejo. 
2.) Intermedirio entre os processos internos (ld-SuperegO) e a relao destes com a realidade. Num diagrama, 
o processo seria assim: 
ld Ego Superego 
Realidade 
Diante da manifestao do desejo, duas proibies podem opor- se: as proibies moras, oriundas do 
Superego, e as interdies da realidade objetiva. Por exemplo,  um sonho humano voar. Quantas vezes, nos 
nossos sonhos, magicamente alamos vo sem que tenhamos asas. O desejo no conhece proibies. E 
necessrio que o Ego, instncia de realidade, nos estabelea limites, ou possibilite-nos a aquisio de 
instrumentos para o vo. Se estivermos apenas no nvel do desejo, repetiremos o sonho trgico de Icaro, pois 
as asas da imaginao no vencem a gravidade. As proibies com as quais o Ego lida no so apenas da 
ordem do real. Temos internalizado uma instncia censora, o Superego. Uma jovem criada dentro de uma 
organizao familiar de tradies morais nos moldes antigos provavelmente tender a ver a sexualidade, 
notadamente a sexualidade pr-marital como algo pecaminoso e proibido. Abraada ao seu namorado, os 
desejos sexuais se manifestam. As proibies surgem tanto do lado real (risco de gravidez, possveis atritos 
reais com a 
famlia) quanto do lado superegico, ou seja, mesmo que o real esteja sob controle, que ela racionalmente ache que a 
experincia ser vlida, que no h perigo de gravidez e que a famlia no necessita saber de sua conduta, algo interno, no 
definido, probe-a de tentar. E o Superego que se manifesta. Se ceder s aos desejos, corre o risco de no se adequar ao 
mundo fsico e social. Mas se permanentemente ficar presa s proibies, ela poder ser imobilizada e no evoluir, no 
poder por si viver novas experincias e crescer com a elaborao de seus resultados. Cabe exatamente ao Ego efetuar a 
conciliao entre os desejos e proibies internas e os desejos e as proibies da realidade objetiva, de forma a possibilitar a 
atuao conciliatria mais produtiva para o sujeito. 
3.a) Setor mais organizado e atual da personalidade. O Id, como matriz instintiva,  uma estrutura arcaica, filogentica. O 
Superego contm proibies que tambm so oriundas da evoluo da espcie, por exemplo, os tabus contra o incesto, o 
parricdio, o matricdio, o filicdio. Os valores morais a serem internalizados so do grupo ao qual o indivduo pertence, 
portanto tambm anteriores a ele. Cabe ao Ego organizar uma sntese atual, tornando o indivduo nico e original e 
permitindo-lhe uma adaptao ativa ao mundo presente em que vive. 
4a) Domina a capacidade de sntese. Aqui englobamos todas as funes lgicas do funcionamento mental, que para a 
psicanlise so atributos do Ego. A memria e o desenvolvimento do pensamento lgico e operatrio esto aqui contidos. 
Resta lembrar que o conhecimento epistemolgico da construo do real  obra de Piaget. Para a psicanlise a organizao 
destas funes s interessa ao nvel individual, quando as perturbaes afetivas comprometem seu funcionamento. 
5.) Domnio da motilidade. O domnio do esquema corporal instrumental, ou seja, o domnio das prax  uma funo do Ego. 
A nossa atuao corporal  o nosso instrumento prtico de realizao do processo secundrio. E  exatamente por estar o 
domnio da motilidade situado no Ego, que quando este se v enfraquecido por distrbios afetivos, a atuao corporal fica 
prejudicada, rgida, estereotipada, perturbada em suas relaes prxicas. Podemos exemplificar isto com vrios sintomas 
presentes, por exemplo, na histeria, na melancolia, ou mesmo reportando-nos ao trabalho terico de carta forma dissidente 
da psicanlise de Reich. 
6.a) Organiza a simbolizao. O processo primrio  pistco. O processo secundrio, ao organizar a linguagem, organiza o 
domnio sobre as fantasias e fornece um instrumento de reter, elaborar e atuar sobre a realidade fsica e psquica. 
26 
27 
7) Sede da angstia. Como instncia adaptativa, o Ego  o responsvel pela deteco dos perigos reais e psicolgicos que 
ameacem a integridade do indivduo. De acordo com a origem do perigo, classificamos a angstia em: 
a) angstia real  normalmente denominada medo. o sinal que mobiliza o indivduo diante da perspectiva de uma 
agresso real. Tem inclusive uma dimenso biolgica bem definida, ou seja, diante do perigo uma descarga de adrenalina na 
corrente sangunea mobiliza uma vasodilatao muscular e uma vasoconstrio perifrica e visceral, propiciando ao 
organismo condies para lutar ou fugir. 
h) angstia neurtica   o temor existente no Ego de que o Id, ou seja, os desejos prevaleam sobre os dados da 
realidade. Na prtica isto aparece numa espcie de sentimento de que estamos enlouquecendo, ou de que no resistiremos 
ao impulso de matar algum, ou de fazer atos em que perderemos nosso controle. 
e) angstia moral   um sentimento acusatrio no qual sentimos que erramos, que somos maus, e nada mais poder ser 
feito a no ser espiar a culpa. Este sentimento provm da atuao de um Superego rigoroso que, ao perceber os desejos que 
condena, passa a punir permanentemente o indivduo como se a transgresso houvesse ocorrido. A confisso dos pecados 
por pensamento, existente em nossas religies,  um bom exemplo do processo. Por imaginar um ato desonesto, a acusao 
superegica de criminoso nos perseguir, ao imaginar uma atuao sexual nos sentimos imorais e desmerecedores do amor 
das outras pessoas. 
2.4.3 O Superego 
A terceira das instncias dinmicas da personalidade  o Superego, responsvel pela estruturao interna dos valores 
morais, ou seja, pela internalizao das normas referentes ao que  moralmente proibido e o que  valorizado e deve ser 
ativamente buscado. Ao estudarmos o Id e o Ego, vrias de nossas referncias j caracterizaram a atuao do Superego. 
Cabe-nos, portanto, apenas algumas concluses finais. O Superego se divide em duas partes complementares. A primeira  
chamada de Ego Ideal e corresponde  internalizao dos ideais valorizados dentro do grupo cultural, os quais o indivduo 
deve ativamente perseguir. Valorizamos a honestidade. a coragem, o desenvolvimento intelectual, a caridade, etc. O 
Superego, atravs do Ego Ideal, tende a impulsionar o indivduo na obteno 
destes valores, punindo-o ou criticando-o quando falha na perseguio desses objetivos. Por exemplo, a nossa cultura  
meritocrtica na valorizao de ttulos universitrios. Um aougueiro que possui seu prprio negcio provavelmente ganha 
mais que um professor universitrio, ou um bacharel em cincias humanas, ou mesmo que um engenheiro em incio ou 
mdio desenvolvimento profissional. Mas o aougueiro sente-se humilhado diante destes profissionais que so menos 
remunerados que ele. Alguma coisa interna, ou seja, um Ego Ideal meritocrtico lhe diz internameite que ele  inferior. 
A outra face do Superego  a Conscincia Moral. Ela corresponde  internalizao das proibies. Vemos que  uma face 
complementar e paralela ao Ego Ideal. Se a honestidade  valorizada, a sua transgresso acarretar a punio pelos 
sentimentos acusatrios oriundos da Conscincia Moral. Se a virgindade  um ideal de conduta feminina pr-marital, a sua 
transgresso ativar sentimentos culposos de inadequao. 
O Superego  uma estrutura necessria para o desenvolvimento do grupo social. Sem ele, seramos todos delinquentes, 
respeitando apenas as restries da fora externa. Dizemos que algum que no desenvolve seu Superego  um psicopata, 
ou seja, algum que, por no ter valores internos, ser propenso  delinqncia e s se conter diante de uma restrio 
externa punitiva, por exemplo, o temor de ser preso. 
Mas, se o Superego  uma instncia necessria ao grupo, quando exacerbado tende a imobilizar ou a neurotizar o indivduo. 
Se os valores que o Ego Ideal estrutura so to altos que o indivduo jamais poder alcan-los, o indivduo permanecer 
impotente e imobilizar- se-. Se as proibies forem muito severas, qualquer atitude que fuja aos valores parentais ser 
considerada um grande crime. Na prtica, isto ser particularmente importante na evoluo da sexualidade normal. Neste 
aspecto, nossa cultura tem sido particularmente cnica. ou seja, mes e pais pregam aos filhos condutas que em geral no 
tiveram. Nesta situao, particularmente o adolescente, ser levado a considerar imorais desejos legtimos. Lembrem-se de 
que a punio superegjca vem mesmo sem a prtica. Basta o desejo. Se sua severidade for grande, no poderemos nem 
desejar. 
2.5 Mecanismos de defesa 
Os conceitos de resistncia e represso estudados bem como as instncias psicodinmjcas da personalidade nos permitiro 
agora compreender o conceito de mecanismo de defesa. Chamamos de mecaFusmos de defesa os diversos tipos de 
processos psquicos, cuja 
24 
29 
finalidade consiste em afastar um evento gerador de angstia da percepo consciente. Os mecanismos de 
defesa so funes do Ego e, por definio, inconscientes. O Ego situa-se em parte no consciente e em parte 
no inconsciente. Como sede da angstia, ele  mobilizado diante de um sinal de perigo e desencadeia uma srie 
de mecanismos repressores que impediro a vivncia de fatos dolorosos, os quais o organismo no est 
pronto para suportar. Por situar-se em parte no inconsciente, poder mobilizar mecanismos inconscientes, que 
no sero percebidos pelo sujeito. Nem ser percebido o evento doloroso, tampouco o mecanismo que o 
reprimiu. O conceito de mecanismo de defesa surge nos trabalhos de Freud e  desenvolvido principalmente 
por sua filha, Ana Freud, em O Ego e os mecanismos de defesa. Vrios outros autores desenvolvero 
conceitos de defesas tpicas de certas fases da vida, ou de certos quadros psicopatolgicOs. Neste aspecto, o 
trabalho de Melanie Klein ser particularmente importante. Daremos agora uma relao dos principais 
mecanismos de defesa. 
2.5.1 Represso 
A represso impede que pensamentos dolorosos ou perigOSoS cheguem  conscincia.  o principal 
mecanismo de defesa, do qual derivam os demais. J o estudamos. juntamente com a resistncia. 
2.5.2 Diviso ou ciso 
Um objeto ou imagem com o qual nos relacionamos pode ter simultanearnente caractersticas que despertam 
nosso amor e o nosso dio ou temor. Dividimos ento este objeto em dois. Um ser o objeto bom, ou seja, 
portador das caractersticas de amor, e com o qual preservaremos nosso bom relacionamento. O outro ser o 
objeto mau, que negaremos ou poderemos atacar sem vivenciar culpas, uma vez que seus aspectos positivos 
j foram isolados no objeto bom. Para Melanie Klein, este  um mecanismo normal das primeiras etapas da 
vida, constituindo-se patolgica a sua manuteno. 
2.5.3 Negao ou negao da realidade 
No percebemos aspectos que nos magoariam ou que seriam perigosoS para ns. Por exemplo, se um filho 
comea a apresentar caractersticas homossexuais, o pai pode demorar a perceb-las ou no as perceber. O 
clssico chavo que diz tem pai que  cego caracteriza bem a negao de perceber eventos dolorosos. Outro 
exemplo da realidade cotidiana  o cigarro. Negamos os riscos de cncer, as perturbaes cardacas que pode 
provocar, e continuamos fumando. 
2.5.4 Projeo 
Quando nos sentimos maus, ou quando um evento doloroso  de nossa responsabilidade, tendemos a projet-
lo no mundo externo. que ao nosso ver assumir as caractersticas daquilo que no podemos ver em ns. Por 
exemplo, uma me que no cuida adequadamente dos filhos, acarretando-lhes vrios problemas, poder 
projetar a culpa em todas as situaes que envolvem a criana. Dir que se o filho vai mal na escola  porque a 
professora  ineficiente; se o filho vive doente  porque os amigos so doentes e o contaminam; se o filho no 
tem iniciativa  porque o pai no  firme; se  agressivo, ou melhor, que reage,  porque todas as pessoas o 
atacam. O extremo do funcionamento por mecanismos projetivos  a parania, onde o sujeito tem tanta 
destrutibilidade interior que  obrigado a projet-la e, a partir dai, passa a ver todo o mundo como perseguidor. 
2.5.5 Racionalizao 
Abstramo-nos das vivncias afetivas e, em cima de premissas lgicas, tentamos justificar nossas atitudes. 
Com isto tentamos nos provar que somos merecedores do reconhecimento dos outros. Por exemplo, 
exploramos uma empregada domstica que recebe um salrio muito baixo. No podemos suportar a angstia de 
nos ver como exploradores. Ento passamos a nos justificar para ns mesmos: Ela  burra e no merece 
ganhar mais do que isso, trabalho braal no cansa, se fosse para outro emprego, ganharia menos, etc. 
Selecionamos, portanto, da realidade, algumas informaes fragmentadas, que justificam nossa conduta, e 
todo nosso pensamento  elaborado em cima delas. Muitas vezes a defesa da eutansia  uma racionalizao. 
Encontramos muitas justificativas lgicas pelas quais 
o doente incurvel deve ser morto, mas na verdade estamos encobrindo os nossos prprios sentimentos 
agressivos contra aquele ser que s nos traz trabalho e angstia. A racionalizao  um mecanismo tpico do 
neurtico obsessivo. 
2.5.6 Formao reativa 
Caracteriza-se por uma atitude ou um hbito psicolgico com sentido oposto ao desejo recalcado. Por exemplo, 
desejos sexuais ifl31 
30 
tensos podem ser transformados em comportamentos extremamente pudorosos ou puritanos. Estes desejos 
so sentidos como perigosos, ou seja, que o indivduo perderia seu controle caso cedesse a eles. Firmar-se 
numa atitude moralista, ou seja, atuar contrariamente ao que se deseja  um meio de autopreservao. Este 
exemplo  um tema freqente da literatura, onde algum que mantinha um comportamento externo rigidamente 
puritano, diante da primeira experincia contrria, entrega-se  luxria, cedendo aos desejos originais. 
2.5.7 Identificao 
Diante de sentimentos de inadequao, o sujeito intemaliza caractersticas de algum valorizado, passando a 
sentir-se como ele. A identificao  um processo necessrio no incio da vida, quando a criana est 
assimilando o mundo. Mas permanecer em identificaes impede a aquisio de uma identidade prpria. Os 
movimentos fanticos tambm se estruturam sobre a identificao: pessoas que se sentiam vazias passam a 
sentir-se valorizadas por se identificarem com o lder, ou com as propostas do movimento. Exemplo tpico disto 
temos a juventude hitlerista. 
2.5.8 Regresso 
 voltar a nveis anteriores de desenvolvimento, que em geral se caracterizam por respostas menos maduras, 
diante de uma frustrao evolutiva. Por exemplo, com o nascimento de um irmo menor, a criana mais velha 
no suporta a frustrao de ser passada para segundo plano. Como defesa, infantiliza-se, volta  chupeta,  
linguagem infantil, urina na cama, etc. Se o adultismo pode provocar frustraes, volta a um modelo infantil 
onde se sentia mais feliz. 
2.5.9 Isolamento 
Consiste em isolarmos um pensamento, atitude ou comportamento, das conexes que teria com o resto da 
elaborao mental. O comportamento assim isolado passa a no ameaar, porque est separado e no mais 
conectado aos desejos iniciais. As condutas rituais dos neurticos obsessivos so um exemplo tpico do 
isolamento. No s o afeto original fica isolado, como o ritual no  associado aos desejos iniciais. 
32 
2.5.] O Deslocamento 
Atravs dele, descarregamos sentimentos acumulados, em geral sentimentos agressivos, em pessoas ou 
objetos menos perigosos. Por exemplo, suportamos o mau humor do chefe e em casa brigamos com os filhos 
ou chutamos o cachorro. Ouvimos, condescendentes uma asneira praticada por nossa esposa, e crucificamos a 
secretria pelo menor erro cometido. Todos os sintomas psiconeurticos acabam tendo a participao do 
deslocamento. 
2.5.]j Sublimao 
 considerado o mecanismo de defesa mais evoludo e  caracterstico do indivduo normal. Os desejos 
afetivos, que consideramos sexuais em um sentido amplo, qapdo no podem ser literalmente realizados, so 
canaljzados pelo Ego para serem satisfeitos em atividades simbolicamente similares e socialmente produtivas 
Por exemplo, os desejos sexuais intensos podem gerar, por sublimao, um grande fotgrafo. O desejo pelas 
mulheres fica sublimado em fotograf-las. Os desejos onipotentes de domnio da sociedade podem gerar um 
bom socilogo. Os desejos agressivos contidos e sublimados podem gerar um bom cirurgio ou dentista. 
2.6 Sexualjdade e Ilbido 
Referimo_nos freqentemente aos conceitos de instinto e pulso. A caracterizao especfica dos conceitos 
constitui ainda uma dificuldade para a psicanlise, quer porque os termos evoluram ou foram empregados em 
mais de um sentido na obra de Freud, quer porque os autores que geraram desenvolvimentos tericos da 
psicanlise, divergiram em sua elaborao conceitual. Utilizamos de uma maneira no muito especfica os 
termos instinto e pulso. Tentvamos referir- nos a uma fonte original de energia afetiva, que mobiliza o 
organismo na perseguio de seus objetivos. o termo mais especfico para designar esta energia  o de libido. 
A libido  a energia afetiva Original que sofrer progressivas organizaes durante o desenvolvimento, cada 
uma das quais suportada por uma organizao biolgica emergente no perodo. Cada nova organizao da 
libido, apoiada numa zona ergena corporal, caracterizar uma fase de desenvolvimento Podemos definir uma 
fase de desenvolvimento como a organizao da libido, em torno de uma zona ergena, dando uma fantasia 
bsica e uma modalidade de relao de objeto. 
A libjdo , portanto, uma energia voltada para a obteno de 
33 
prazer. E neste sentido que a definimos como uma energia sexual, num sentido amplo, e que caracterizaremos 
cada fase de desenvolvimento infantil como uma etapa psicossexual de desenvolvimento. Estamos 
especificando que a sexualidade no  vista pela psicanlise em seu sentido restrito usual, mas abarca a 
evoluo de todas as ligaes afetivas estabelecidas desde o nascimento at a sexualidade genital adulta. Por 
definio, todo vnculo de prazer  ertico ou sexual. Ao organizar-se progressivamente em tomo de zonas 
ergenas definidas, a libido caracterizar trs fases de desenvolvimento infantil: 
a fase oral, a fase anal e a fase flica, um perodo intermedirio sem novas organizaes, o perodo de latncia, 
e uma fase final de organizao adulta, a fase genital. 
H uma tendncia natural para o desenvolvimento sucessivo das fases. Mas, se num dado momento de 
evoluo a angstia  muito forte, o Ego  obrigado a mobilizar fortes mecanismos de defesa para enfrent-la. 
Isto significa que h, de um lado, a energia do desejo imobilizada. A angstia s surge se, ao tentarmos nos 
ligar a um objeto, isto implica em relaes de temor ou de destruio. Do outro lado, o Ego, que  tambm um 
depositrio da energia original, mobiliza energias que so estancadas nos mecanismos de defesa. Isto cria um 
ponto de fixao, ou seja, um momento no processo evolutivo onde paramos, por no poder satisfazer um 
desejo, e onde tambm paramos por que a deixamos muita energia imobilizada. O Ego se torna mais frgil em 
seu processo evolutivo, porque parte de sua energia permanece ligada a este momento. Por ser mais frgil, ter 
dificuldades em enfrentar novos momentos crticos e se, nesses momentos, a angstia for muito forte, o Ego 
regredir para estes pontos de fixao. A regresso ser dupla. Por um lado, regredir para uma fantasia 
infantil, ou seja, para o desejo que no foi satisfeito. Por outro lado, far uma regresso formal, ou seja, como a 
tentativa de adaptao posterior falhou, o Ego regride exatamente para este ponto onde tem muita energia 
mobilizada em um tipo de defesa, passando a relacionar-se com o mundo atravs desta defesa. Por isso, a 
neurose  definida por Freud como um infantilismo psquico. O neurtico est sempre atualizando fantasias 
infantis e repete sempre, na relao com os objetos atuais, aquele modelo infantil no qual foi fixado e para o 
qual regrediu depois de um evento traumtico. 
Para a compreenso do processo, apresentaremos inicialmente um relato descritivo das fases de 
desenvolvimento propostas por Freud. Isto nos ajudar a caracterizar os momentos evolutivos de um 
desenvolvimento normal. O relato  apenas introdutrio e, nos volumes seguintes desta coleo, teremos a 
oportunidade de detalhar 
o processo. Em seguida, como uma introduo  formao de sintomas, estudaremos os atos falhos, os sonhos 
e o simbolismo e, finalmente, alguns processos de formao de sintomas. 
2.7 Fases de desenvolvimento 
2.7.1 Fase oral 
Ao nascer, o beb perde a relao simbitjca pr-natal que Possua com a me, e a satisfao plena da vida 
intra-uterina Com 
o corte do cordo, a separao irreversvel, e a criana deve iniciar sua adaptao ao meio. Muito se tem falado 
no trauma do nascimento, enfatizando_se os traumatismos fsicos de parto, como uma entrada violenta no 
mundo. No negamos que estes processos possam ter influncias no desenvolvimento futuro. Deles podem 
inclusive decorrer seqUelas lesionais. Mas no  da que surgir a angstia fundamental do nascimento, o 
termo angstia, em sua prpria origem etimolgica, significa dificuldade para respirar. Com o corte do 
cordo, bloqueia-se o afluxo do oxignio materno. A carncia  sentida, e o organismo j luta para sobreviver. 
A luta entre os instintos de vida e os instintos de morte j  um combate franco neste momento.  preciso 
reagir, inspirar, introjetar o mundo externo. Ou se recebe o externo, ou se deixa de viver. A angstia de respirar 
 a perda do paraso bblico e o incio da conquista do po com o suor do prprio rosto. Perdido o tero, a 
criana ter de enfrentar o mundo. Construir progressivame suas relaes afetivas e intelectuais, at que ela 
prpria se torne progenitora. Est estabelecida a luta pela perpetuao da vida, finalidade ltima da prpria 
vida. A latncia da semente cede lugar s primeiras folhas que se abrem para o sol e a chuva, para o crescer e o 
tornar-se rvore. Respirar marca o ponto inicial da independncia humana. Vrias etapas se sucedero at a 
plena aquisio de sua identidade. 
A luta inicial  pela manuteno do equilbrio homeosttico Os processos j existentes na vida intra-uterina, 
de incorporar os alimentos necessrios e excretar o que  prejudicial, sero agora deslocados para as relaes 
com o mundo. Inspira-se o ar saudvel, repleto de oxignio, e expira-se o ar viciado. A amamentao traz o leite 
que alimenta, as fezes e a urina dejetam os produtos j metabolizados e inteis. A esto os fundamentos 
biolgicos dos mecanismos de projeo e introjeo que viro estabelecer as primeiras trocas Psicolgicas da 
criana com o mundo. 
Ao nascimento, a estrutura sensorial mais desenvolvida  a boca. pela boca que se mobilizar na luta pela 
preservao do equil 34 
35 
rio homeosttico. E pela boca que comear a provar e a conhecer o mundo. E pela boca que far sua primeira e 
mais importante descoberta afetiva: o seio, O seio  o primeiro objeto de ligao infantil. E o depositrio de 
seus primeiros amores e dios, O seio j existe quando o desenvolvimento maturacional no permite ainda  
criana reconhecer o seu primeiro objeto total: a me. Esta se construir gradativamente a partir do amor que o 
seio oferece. Eriksoi define que, neste momento, a criana ama com a boca 
a me ama com o seio. 
Neste momento a libido est organizada em torno da zona oral. Como j vimos, o conceito de fase pressupe a 
organizao da libido em torno de uma zona ergena, dando uma modalidade de relao de objeto. A fase fica 
caracterizada pela zona erotizada, e da a denominao de fase oral, dada a este perodo. A modalidade de 
relao oral ser a incorporao. 
2.7.1.1 A modalidade incorporativa 
A incorporao  um caso particular do mecanismo de introjeo. Como nas etapas iniciais da vida, a 
simbolizao ainda no evoluiu e a incorporao necessita de um elemento concreto. A criana incorpora o 
leite e o seio e sente ter a me dentro de si. O vnculo inicial pode ser estabelecido. Tudo o que a criana pega 
 levado  boca:  comendo que ela conhece o mundo e que as identificaes podem ser estabelecidas.  
difcil, como adultos, retomarmos o pensamento desse perodo precoce da vida. S poderemos faz-lo por um 
esforo de abstrao. Mas creio que nos ser mais fcil compreender essa modalidade incorporativa, se 
observarmos seus resqucios nos comportamentos adultos. Tomemos micialmente dois 
comportamentos mticos: o canibalismo e a comunho. Os grupos primitivos, que praticam o canibalismo, no 
o fazem por necessidade alimentar, mas o praticam como um ritual. S os guerreiros podem ser comidos, e 
assim mesmo apenas os fortes e aprisionados em combate (veja-se o poema 1-Juca Pirama, de Gonalves 
Dias). No  a carne que se incorpora, mas  a fora e a bravura dos guerreiros aprisionados que passaro para 
quem os come. A carne representa a dimenso concreta e oral da modalidade incorporativa. Da mesma forma 
que se incorpora a me pelo leite e pelo seio, os atributos valorizados do guerreiro so incorporados pela sua 
ingesto. A incorporao lana os fundamentos da identificao. Na comunho o processo  similar. Atravs 
da hstia, incorpora-se o corpo de Cristo. No exatamente o seu corpo, mas os seus atributos: a bondade, o 
amor, o perdo, a f, a esperana. 
36 
b sacerdote no diz simplesmente tenham Cristo em vocs. Mas 
o concretiza num ritual proposto pelo prprio Messias na ltima 
Ceia. A hstia  fisicamente incorporada para estabelecer os princpios bsicos da identificao crist. 
A incorporao  a etapa concreta da introjeo e a organizao primitiva da identificao, Quanto mais regredido, menos 
simbolizado e mais concreto o processo. Quanto mais regredido etariamente, mais se toma a parte (atributo) pelo todo 
(substantivo). 
2.7.1.2 As etapas orai.v 
Partindo das observaes do pediatra Lindner, de Budapest, Freud descreve uma sexuajidade oral infantil. E muito curioso 
como as descries de Lindner so similares s que Freud posteriormente far, excetuando a conotao sexual que este 
ltimo atribui ao processo. Freud rende-lhe tributos em vrias de suas obras. Vamos tentar discriminar esta sexualidade 
oral, diferenciando_a inicialmente dos processos biolgicos de base que lhe do origem. A criana nasce com um corpo de 
reflexos que em geral a pediatria divide em reflexos alimentares, reflexos posturajs e reflexos defensivos. Sobre este 
conjunto inicial de reflexos, vo se estabelecendo os processos corticais que formam a base progressiva de construo do 
real. Este  o tema bsico da obra piagetiana. O conjunto de reflexos alimentares  o que na prtica serve s primeiras 
necessidades de equilbrio homeosttj_ co da criana. A modalidade reflexa inata de busca de alimentos  necessria para a 
sobrevivncia Freud (e Lindner) percebe que, alm da necessidade fsica de alimentao, a criana sente um grande prazer 
no ato de mamar em si. Mesmo depois de satisfeita, ela continua a sugar a chupeta. Quando dorme, faz movimentos de 
suco, aparentando grande prazer. O prazer oral  uma modalidade que se estabelece anacliticamente ao prazer alimentar, 
mas que dele se separa. Este vnculo inicial de prazer em Si, independente da sobrevivncia fsica, constituir a base das 
futuras ligaes afetivas. O que  o afeto seno um vnculo prazeiroso que se estrutura independentemente das 
necessidades bsicas de sobrevivncia, embora com ela tenha correlaes iniciais? Se a ligao de amor existisse apenas no 
plano alimentar, as crianas institucionalizadas se desenvolveriam to bem quanto as criadas pela prpria me  o que todos 
sabemos que no  verdade E a capacidade de formar um vnculo de prazer em si que pode permitir a formao da 
afetividade. Este processo de progresj5 ligaes emocionais, que denominamos de desenvolvimento das relaes 
objetais, comea com o amor que a criana 
37 
inicialmente dirige ao seio. Posteriormente o afeto reconhecer a me, o pai, as outras pessoas e objetos do mundo, at a 
futura constituio de afetividade genital adulta. 
K. Abrahan, um dos primeiros e mais atuantes colaboradores de Freud, prope duas etapas do desenvolvimento da libido 
na fase oral. A primeira precede  dentio e  chamada de etapa oral de suco, onde a modalidade de relao  
incorporativa (introjetiva) e visa a apreenso em si do mundo (seio, me, etc.). Nesta etapa a criana ainda vive seu mundo 
interno de fantasias como realidade, sendo que a realidade objetiva externa s  apreendida parcial e fragmentariamente. 
Chamamos de narcisismo a este modelo de organizao psquica infantil. A fixao do indivduo nesta etapa, ou seu 
posterior retorno ao modelo desta etapa, atravs de uma regresso psicolgica, caracterizar um quadro clnico que 
denominamos esquizofrenia. A segunda etapa, que surge com a ecloso dos dentes,  denominada etapa oral sdico-
canibal. Os dentes surgem para a criana como a primeira concretizao de sua capacidade destrutiva.  necessrio que a 
agressividade se manifeste, porque dela derivar a futura combatividade social. Mas r a criana  posta pela primeira vez 
em uma posio ambivalente. 
De um lado, ama, e amar significa a incorporao oral. De outro, o mastigar e comer atualiza fantasias destrutivas. Se o 
desenvolvimento afetivo for normal, o amor ser estabelecido como sentimento bsico. Se o desenvolvimento for dominado 
por angstias, a agressividade (dio) ser predominante, restando o sentimento de que tudo aquilo que  amado e 
incorporado,  inevitavelmente destrudo. Este sentimento de destruir o que  amado constitui o ponto de fixao que 
poder estabelecer um futuro quadro de melancolia (psicose manaco-depressiva). 
2.7.2 Fase anal 
No incio do segundo ano de vida, a libido passa da organizao oral para a anal. Temos insistido sempre que a psicanlise 
deve ser vista dentro de um modelo anacltico, ou seja, sempre h organizaes biolgicas de base sobre as quais os 
modelos psicolgicos so organizados. Examinamos no item anterior como isto se d com a modalidade incorporativa, que  
a estrutura bsica do primeiro ano de vida. 
No segundo e terceiro anos de vida, d-se a maturao do controle muscular na criana, isto , d-se a organizao 
psicomotora de base.  o perodo em que se inicia o andar, o falar e em que se estabelece o controle de esfncteres. A mo 
sai do tateio e 
38 
preenso mais grosseiros, para desenvolver grande preciso na pina indicadorpojegar Embora ainda com o 
andar apoiado na ponta dos pS, desequilibrado, aparentando o anjinho barroco que vai alar vo, a criana j 
pode sair para conhecer o mundo de p, frente a frente, e no mais de baixo para cima como ocorria na fase 
oral. As funes corticais substituem as condutas anteriormente reflexas. A segmentao neuromuscular 
permitir o aparecimento de movimentos finos e coordenados dominando sobre os antigos comportamentos 
globais. 
Dois processos bsicos esto se Organizando na evoluo psicolgica. O primeiro diz respeito ao contedo, 
ou seja, s fantasias que a criana elabora sobre os primeiros produtos realmente seus que coloca no mundo. 
O segundo diz respeito ao modelo de relao a ser estabelecido com o mundo atravs destes produtos. 
Primeiramente desenvolve_se o sentimento de que a criana tem coisas suas, coisas que ela produz e que pode 
ofertar ou negar ao mundo. Ao nvel mais imediato, poderemos perceber isto no andar ou no falar. S anda 
quando est bem; se chega um estranho, volta a engatinhar em busca da me. Fala, mas s o faz se sente que  
aceita. Quando assustada, emudece, negando seu produto fala ao ambiente que a rejeita ou a ataca. 
O perodo  denominado fase anal, porque a libido passa a organizar-se sobre a zona ergena anal. A fantasia 
bsica ser ligada aos primeiros produtos, notadamente ao valor simblico das fezes. Duas modalidades de 
relao sero estabelecidas. a projeo e o controle. 
2.7.2.1 O valor simblico dos produtos anais 
Dentre os produtos que a criana elabora, as fezes assumem um lugar central na fantasia infantil. So objetos 
que vm de dentro do prprio corpo, que so, de certa forma, partes da prpria criana. So objetos que geram 
prazer ao serem produzidos. Durante o treino de esfncteres, as fezes so dadas aos pais como prendas ou 
recompensas Se o ambiente  hostil, so recusadas. A ns, adultos, pode parecer ingnuo enfatizar tanto o 
valor psicolgico das fezes. Pois bem, observemos uma me ensinando a criana a utilizar o troninho. ela 
elogia o esforo da criana, incentiva, torce para que ela consiga e, quando o produto finalmente vem,  
recebido com honrarias; canta-se Parabns e Pique-pique para o coc. Todo este processo  vivido por 
ns como absolutamente normal. Mas imaginem um personagem emocionalmente frio, como o famoso Dr. 
Spock de Jornada nas Estrelas, assistindo 
39 
- 
o processo. No mnimo o definiria como uma loucura a dois. Tomem outros exemplos normais adultos, como o 
ritual de contemplar as fezes antes da descarga, ou o procedimento de transformar o banheiro num salo de 
estar, com msica, revistas e cigarros. Tomem ainda o exemplo antropolgico de vrias tribos que defecam em 
cima do tmulo do ente querido, em sinal de respeito. Ou ainda o fato de que o odor das prprias fezes  
sentido como agradvel pela maior parte das pessoas, enquanto causa nuseas s outras. Os exemplos 
poderiam ser ampliados e analisados em profundidade, tarefa que reservamos para a anlise especfica desta 
fase, num volume seguinte. 
Quando o desenvolvimento  normal, ou seja, quando a criana ama e sente que  amada pelos pais, cada 
elemento que a criana produz  sentido como bom e valorizado. O sentimento bsicoL que fica estabelecido a 
levar em todas as etapas posteriores da vida a sentir que ela  adequada e que seus produtos so bons; 
portanto, estar sempre livre e estimulada a produzir. Temos visto vrios livros correlacionando fase anal com 
capacidades artsticas. Isto  s uma parte do processo. O sentimento de que o que produzimos  bom,  
necessrio para todas as relaes produtivas que estabelecemos com o mundo. Produzimos no trabalho, e 
temos de sentir que nosso produto  bom. Produzimos filhos, e temos de sentir que nosso produto  bom. S 
poderemos criar se houver um sentimento interior de que nossos produtos so bons. O sentimento de 
autonomia que Erik Erikson descreve como correspondente a esta fase, talvez pudesse ser melhor definido 
como um sentimento geral de adequao. 
2.7.2.2 As etapas anais 
Abrahan e Freud subdividem a fase anal em duas etapas. A etapa inicial  biologicamente caracterizada pelo 
domnio dos processos expulsivos, sobre os quais se assentar o mecanismo psicolgico da projeo. A 
segunda etapa  retentiva, o que propiciar a base para os mecanismos psicolgicos ligados ao controle. 
Temos de levar em conta que a Teoria Psicanaltica surge de trabalhos clnicos; portanto,  natural que muitos 
dos processos descritos derivem sua denominao da psicopatologia. Assim, todos os mecanismos 
psicolgicos que surgem so necessrios e adaptativos dentro de um certo momento de vida, mas  medida em 
que um mecanismo psicolgico infantil se fixar e se tornar o centro da organizao afetiva, teremos a 
configurao de um quadro psicopatolgico definido e estruturado por este mecanismo. Vimos que  um 
processo normal a criana 
pr coisas no mundo, como tambm  normal discriminar quando e para quem d seus produtos. 
Mas pode ocorrer que as relaes de angstia predominem sobre as relaes de amor. Os primeiros produtos infantis no 
so mais objetos de valor, mas se constituem em armas destrutivas que agridem o mundo toda vez em que so produzidos. 
Pensemos, por exemplo, em uma me neurtica que entra em pnico toda vez em que a criana suja as fraldas ou que, por 
no suportar barulho, obriga a criana ao silncio. Isto concretiza para a criana a fantasia de que seus produtos so maus e 
destrutivos. E uma defesa usual expelir tudo que h em ns e que sentimos que  mau. Atiramos ento nossos produtos 
destrutivos no mundo e, como depositrio de nossas agresses, o mundo se tornar mau e destruidor. A projeo dos maus 
produtos sempre cria um mundo perseguidor. A parania  a primeira filha do fracasso em estabelecer a colocao dos 
produtos infantis no mundo. 
A neurose obsessiva  a segunda conseqncia no fracasso do desenvolvimento da fase anal. Se os produtos foram 
projetados numa estrutura paranica, na estrutura obsessiva so retidos e controlados. Se os produtos geram angstia 
necessito exercer um grande controle sobre o que posso liberar e sobre as pessoas para quem liberarei minha produo. O 
amor e o afeto vo progressivamente cedendo terreno  temtica do controle e da organizao, at que um mundo, que 
deveria ser estruturado sobre o afeto, seja substitudo por um mundo frio e formal. O obsessivo torna-se afetivamente 
desativado, robotiza-se nas ritualizaes frias e formais e torna-se incapaz de criar. 
2.7.3 Fase flica 
Por volta dos trs anos de idade, a libido inicia nova organizao. 
A erotizao passa a ser dirigida para os genitais, desenvolve-se o 
interesse infantil por eles, a masturbao torna-se freqente e normal 
e a preocupao com as diferenas sexuais entre meninos e meninas 
passam a contaminar at a percepo dos objetos: O nibus tem 
pipi?  Se no tem,  mulher. Curiosamente est. dsL rlmiraco 
sexual no caracteriza a existncia de dois genitais, o masculino e 
o feminino, mas apenas a presena ou ausncia de pnis. A vagina 
 e continuar sendo desconhecida ainda por muito tempo. Os 
homens, e o gnero masculino, so definidos pela presena do rgo 
flico, ao passo que as mulheres identificam-se pela sua ausncia. Nas fases oral e anal j vimos que cada uma delas tem 
uma 
erotizao corporal, uma fantasia particular e uma modalidade de 
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4 
relao de objeto. A erotizao dos genitais, que se inicia neste perodo, traz a fantasia de meninos e meninas 
serem possuidores de um pnis. A erotizao masculina, portanto, recair normalmente sobre o pnis, 
enquanto que a feminina se manifestar no clitris, que ser fantasiado como sendo um pequeno pnis que 
ainda crescer. O menino exibe seu membro, orgulhoso, com ares de superioridade, aproando que  homem. A 
menina reage, protestando que o seu ainda crescer e ficar igual ao do menino. Mas,  medida em que o 
desenvolvimento se processa, a percepo correta da realidade confirmar aos olhos infantis que s o homem 
 portador de pnis, ficando a mulher na condio de castrada. Numa viso freudiana, esta configurao 
primitiva do pensamento sexual infantil fornecer as bases diferenciais das organizaes psicolgicas 
masculina e feminina. Ao homem adjudica-se um elemento de superioridade, que  a posse do pnis. Em 
decorrncia, configura-se uma grande ameaa diante dos conflitos interpessoais, que  o temor de ser atacado 
naquilo que mais valoriza, ou seja, o temor de castrao.  mulher atribui-se um elemento de inferioridade, a 
castrao, e uma inveja decorrente, a inveja do pnis, que a mobilizar no sentido de conseguir o que s o 
homem tem, ou de compensar esta inferioridade sentida no plano da fantasia. 
Na fase flica, a libido erotiza os genitais. A fantasia bsica  flica. E qual a tarefa bsica desta fase, ou seja, 
qual a sua modalidade de relao? A tarefa bsica deste momento consiste em organizar os modelos de relao 
entre o homem e a mulher. Os genitais erotizados dirigem uma busca de satisfaes de desejos sexuais. Nunca 
devemos nos esquecer de que estamos nos referindo  organizao da fantasia infantil. A procura do parceiro 
para a satisfao sexual real  uma tarefa do adulto,  um trabalho da fase genital. Ao nvel da criana,  a 
modalidade de relao que se define, ou seja,  no menino que se forma uma espcie de sentimento de busca 
de prazer junto a uma mulher. Por parte da menina, o processo  similar e inverso, ou seja, existe a busca de 
prazer junto a um homem. 
A procura do sexo oposto  uma estrutura comportamental instintiva nos animais, enquanto grupo geral. Por 
exemplo, dois coelhos, um macho e uma fmea, criados individualmente isolados durante toda a vida, se 
postos juntos, quando adultos, partem imediatamente para um lacionamento sexual. Mas  medida em que se 
sobe na escala filogentica, notadamente entre os mamferos primatas, a relao macho-fmea no  s ditada 
por traos instintivos. Ela requer etapas de socializao onde o desenvolvimento inicial tem particular 
importncia. Por exemplo, macacos superiores criados 
isolados, sem a me, quando postos juntos, so incapazes de um relacionamento sexual. Macho e fmea ficam 
excitados, agarram-se e agridem-se, mas no sabem o que fazer. E como se o trao instintivo fosse difuso e 
necessitasse de uma fase de aprendizado de amor para se organizar. Quando falamos em atrao sexual infantil, 
 mais ou menos nestes termos que o processo deve ser considerado. H a fantasia de busca do parceiro, mas 
dentro de processos difusos (embora permeados pela fantasia flica), que devem ser organizados para que se 
estabelea uma adequada atrao masculino-feminina 
A libido est organizada sob o primado da zona ergena genital, mas configurada sob a fantasia flica. A 
erotizao de uma zona corporal cria um desejo a ser satisfeito. A erotizao  vista dentro de um modelo 
homeosttico, ou seja, h um acmulo de tenso que deve ser descarregado. A descarga corresponde  
sensao de prazer. A erotizao genital cria a necessidade de buscar o objeto que permitir a obteno de 
prazer, ou seja, um elemento do sexo oposto. E, portanto, natural que durante a fase flica, como reao  
emergente erotizao, o menino seja dirigido para a busca de uma figura feminina. Busc-la faz parte de uma 
organizao filogentica de preservao e continuao da vida. E quem  a figura feminina mais prxima, e de 
quem o menino gosta mais? E a me. A maior parte dos vnculos de prazer da infncia esto ligados  me.  
tambm natural que na fantasia infantil o menino a configure como seu objeto de atrao sexual, O menino est 
genitalmente erotizado, sente que isto  bom e que precisa compartilhar isto com uma figura feminina. A figura 
da me preenche na fantasia este papel. E esta relao estabelecida servir de suporte para que mais tarde, 
quando adulto, possa buscar uma parceira sexual externa  famlia, com quem estabelecer vnculos afetivos 
importantes e constituir sua prpria famlia. Podemos dizer que  aprendendo a amar em casa que a criana se 
tornar o adulto capaz de amar fora. 
Se aprender a amar  uma relao positiva, o amor incestuoso  uma relao proibida, O tabu do incesto  a lei 
mnima da organizao humana. Foi necessrio aprender a amar, mas a relao incestuosa que serviu de 
suporte para esta aprendizagem deve agora ser reprimida. O esquema repressor  desencadeado com a entrada 
do pai em cena. O pai soma as fantasias filogenticas de pai totmico, dono da me e das mulheres, com a 
configurao real de pai, marido e smbolo da autoridade. A autoridade usar de sua fora para fazer cumprir a 
lei. Tem o poder de recompensar e punir. O pai coloca-se ento como um interceptor entre o filho e a me. 
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- 
As fantasias infantis de se casar com a me, de ser seu namorado (expresses estas, todas usuais de crianas 
desta idade), ficam vedadas pelo pai. Paralela e ambivalentemente ao amor que o menino devota ao pai, fica-lhe 
dirigido um sentimento mesclado de dio e temor. A criana configura o desejo de eliminar aquele que lhe 
impede o acesso  me. Fica ento configurado o tringulo que Freud denomina Complexo de dipo, numa 
referncia ao drama dipo Rei, de Sfocles. 
Com o estabelecimento d6 tringulo edpico, o pai, maior, mais forte e dono da me,  sentido pelo filho como 
um adversrio contra o qual no poder lutar. Se o elemento mais valorizado pela criana  o pnis, se o ponto 
de competio com o pai  sua erotizao, parece decorrncia lgica que, na fantasia infantil, o pai o puna, 
atacando-o no ponto fundamental do conflito, ou seja, o pai o castrar. Configura-se ento, na relao com o 
pai, o temor de castrao, que o obrigar a reprimir a atrao sentida pela me. Com esta represso fica 
encerrada a etapa flica infantil. Mas o modelo de busca de um amor heterossexual foi estabelecido e ser 
posteriormente retomado com a adolescncia. 
O Complexo de dpo, tambm chamado por Freud de Complexo Nuclear,  o ponto central da organizao 
afetiva dentro do modelo psicanaltico. Ele envolve vrios elementos evolutivos, alguns dos quais se tornam 
pontos de dissidncia dentro da psicanlise. 
Nesta seo, descreveu-se apenas a configurao inicial do dipo masculino. A organizao e a evoluo do 
modelo masculino, bem como o do feminino (que para Freud  diferente), sero analisadas em detalhes numa 
etapa posterior deste trabalho, quando descreveremos o desenvolvimento afetivo do pr-esctilar. Nessa 
oportunidade confrontaremos o modelo freudiano om as principais evolues e divergncias surgidas na 
psicanlise. 
2.7.4 Perodo de latncia 
Com a represso do dipo, a energia da libido fica temporariamente deslocada dos seus objetivos sexuas. 
Dizemos que houve de incio a represso da energia sexual. Como esta energia  permanentemente gerada, ela 
no pode ser simplesmente eliminada ou reprimida.  preciso que ela seja canalizada para outras finalidades. 
Estando os fins erticos vedados, ela  canalizada para o desenvolvimento intelectual e social da criana. A 
este processo de canalizar uma energa inicialmente sexual em uma energia mobilizadora chamamos de 
realizaes socialmente produtivas de sublimao. Ao 
perodo que sucede a fase flica, chamamos de perodo de latncia. O perodo de latncia caracteriza-se pela canalizao 
das energias sexuais para o desenvolvimento social, atravs das sublimaes. O perodo de latncia no , portanto, uma 
fase: no h nova organizao de zona ergena, no h nova organizao de fantasias bsicas e nem novas modalidades de 
relaes objetais. E um perodo intermedirio entre a genitalidade infantil (fase flica) e a adulta (fase genital). A 
sexualidade, que permanece reprimida durante este perodo, aguarda a ecloso da puberdade para ressurgir. Enquanto a 
sexualidade permanece dormente, as grandes conquistas da etapa situar-se-o nas realizaes intelectuais e na socializao. 
 por isso que este  o perodo tpico do incio da escolaridade formal ou da profissionalizao, em todas as culturas do 
mundo. 
2.7.5 Fase genital 
Ao perguntarem a Freud, em sua velhice  quando j tinha realizado praticamente toda sua obra pessoal , como definiria 
um homem adulto normal, ele respondeu apenas que o homem normal era aquele que  capaz de amar e trabalhar. 
Alcanar a fase genital constitui, para a psicanlise, atingir o pleno desenvolvimento do adulto normal.  ser o homem que 
comeou a surgir quando a criana perde o nirvana intra-uterino e vai progressivamente introjetando e elaborando o mundo. 
As adaptaes biolgicas e psicolgicas foram realizadas. Aprendeu a amar e a competir. Discrimjnou seu papel sexual. 
Desenvolveu-se intelectual e social- mente. Agora  a hora das realizaes. E capaz de amar num sentido genital amplo.  
capaz de definir um vnculo heterossexual signifjcativo e duradouro. Sua capacidade orgstica  plena, e o prazer dela 
oriundo ser componente fundamental de sua capacidade de amar. A perturbao na capacidade orgstica  uma tnica dos 
neurticos. 
O indivduo normal no s se realizar na genitalidade especfica, como o far num sentido amplo. A perpetuao da vida  
a finalidade ltima da vida. Procriar e os filhos sero fonte de prazer. Sublimar e, como frutos paralelos, ser capaz de 
trabalhar e produzir. Produzir , num sentido amplo, sublimao do gerar. A obra social  derivada da genitalidacle. 
Estabelecer filiaes significativas com profisses, partidos polticos, ideologias religiosas, correntes estticas, so 
sublimaes da sua capacidade de amar, de estabelecer um vnculo maduro nas relaes naturais homem-mulher. 
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2.8 A formao de sintomas 
Freud descobriu no ser humano dois nveis de estruturas psquicas coexistentes: o consciente e o 
inconsciente. No caso da cliente de Breuer, Ana O., vimos que, os sintomas histricos cessavam, quando um 
evento traumtico era trazido para a conscincia. Isto nos coloca diante de uma questo bsica: por que os 
sofrimentos, com a doena do pai, fizeram surgir sintomas fsicos, paralelamente ao processo de represso das 
lembranas? Quando acompanhamos outros casos de doenas mentais, encontramos sempre o sintoma como 
um substituto do evento traumtico reprimido. Deve haver, portanto, um caminho que progressivamente 
transforma os desejos e angstias iniciais em processos completamente diferentes. Nesses processos, a 
energia da libido poder ter vazo, sem que a angstia seja desencadeada. 
Parece constituir uma caracterstica bsica do ser humano a utilizao de meios indiretos para se comunicar. 
Isto  um processo normal, criativo e esteticamente valorizado. As figuras de linguagem que povoam qualquer 
lngua oferecem excelentes exemplos do processo. Jamais podero ser tomadas em seu sentido literal as 
expresses do tipo deu um n na garganta, estou matando cachorro a grito, fala pelos cotovelos, 
voltando  vaca-fria. Quando as analisamos em profundidade, poderemos at encontrar relaes entre o que 
formalmente  dito e o sentimento que faz surgir a frase. O inconsciente, como depositrio bsico da 
simbologia onto e filogentica, tem a capacidade de, por encadeamento de smbolos, propor frmulas 
alternativas para expressar uma mensagem que conscientemente no pode ser percebida. Vejamos os nveis de 
ocorrncia do processo. 
2.8.1 Os atos falhos ou parapraxias 
Uma jovem est se arrumando para sair e a me lhe diz: leve a sombrinha que vai chover. A jovem faz de 
conta que concorda, mas ignora o conselho. Ao se dirigir para a sala, encontra a sombrinha que a me deixou 
sobre a mesa, junto  bolsa, para que no a esquea. A jovem finge que no percebe, apanha a bolsa e vai para 
o carro. Solcita, a me corre atrs e triunfante enfia a sombrinha pela janela. Quando retorna depois do 
passeio, a jovem constata que perdeu a sombrinha. Pode, inclusive, sentir-se preocupada com isto. Mas, no 
fundo, a atuao dos processos inconscientes deram um jeito de livr-la do smbolo da opresso materna. Isto 
 um ato falho. Podemos presumir, oculto por ele, um desejo inconsciente de se rebelar, romper vnculos com a 
dependncia 
que lhe  imposta, ou mesmo uma certa dose de rancor contra me. Oposta a isto, h a postura da boa filha, que ama a me, 
com a qual jamais se permitiria ser grosseira. Externamente, a ltima tendncia vence, e seu comportamento  atencioso. 
Mas a primeira no est morta. Est apenas buscando um meio de burlar a represso, ou seja, tentando surgir de uma 
maneira to indireta, que a agresso  me no seja percebida. Vemos que o ato de esquecer a sombrinha em algum lugar 
estabelece um acordo entre as duas tendncias conflitantes. De um lado, pde contrariar a imposio materna. De outro, 
pde preservar sua boa relao com a me. 
Dentro deste mesmo modelo esto os esquecimentos de nomes, os lapsos de memria, as expresses que saem exatamente 
contrrias ao que queramos dizer (por exemplo, dar felicitaes em vez de psames nos funerais) e os acidentes com 
relquias de famlia (por exemplo, quebrar o vasinho de estimao da tia chata). 
Temos ento em conflito um desejo ou inteno que no pode ser percebida, por contrariar os ideais morais do sujeito. A 
isto chamamos de tendncia perturbadora Por outro lado, temos as atitudes ou bons pensamentos que o sujeito se acha 
na obrigao de assumir, mas que no correspondem aos seus desejos inconscientes. A isto chamamos de tendncia 
perturbada. Do conflito estabelecido, surge uma terceira conduta, que em parte satisfaz e em parte contraria cada uma das 
duas. Isto  um sintoma, O ato falho  um modelo tpico de formao de sintomas. Nem houve a agresso, nem a 
submisso. Deve, porm, ser frisado que, se o ato falho resolveu o conflito no momento, ele no contribuiu em nada para o 
crescimento individual, ou seja, no resolveu o conflito pessoal existente. Apenas retardou sua exploso. 
2.8.2 Os sonhos e o simbolismo . 
Tal qual as parapraxias, os sonhos so fenmenos psquicos que nos facilitam compreender o inconsciente. No prprio 
dizer de Freud, os sonhos so portas para o inconsciente. Vamos comear analisando uma modalidade de sonhos que no 
apresentam conflitos na relao consciente-inconsciente, para depois discutirmos a estrutura dos sonhos conflitjvos. Uma 
criana cobia os doces de uma vitrina e durante a noite sonha que est comendo muitos doces. Um rapaz fica apaixonado 
por um carro esporte que v na rua.  noite. durante o sonho, dirige o carro que  seu. A garota v os prospectos de uma 
agncia de turismo e nos sonhos passeia por Roma ou Paris, Em todos estes casos tivemos um desejo que no pode ser 
realizado 
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por motivos externos e prticos. Ao nvel interno, nada se opunha s realizaes. Nos sonhos os desejos so retomados e 
realizados alucinatoriamente. O Ego. enfraquecido no sono, diminui o limite que separa a fantasia da realidade. A tenso do 
desejo pode ento ser aliviada. Os sonhos so realizaes alucinatrias de desejos. A este tipo de sonhos que traz a 
realizao literal de desejos (porque estes desejos no so conflitivos) chamamos de sonhos infantis. 
Mas, parte dos desejos que temos no pode ser por ns aceita, no podendo nem sequer ser percebida, notadamente os 
desejos ligados  agresso ou a fantasias sexuais que nossa estrutura tica rejeita (por exemplo, o incesto ou as tendncias 
homossexuais). Tomemos um exemplo. Uma mulher se casa e fica grvida em seguida. Com a criana  obrigada a deixar o 
emprego e, como conseqncia das dificuldades econmicas geradas, deixa os estudos. Depois de alguns anos encontra uma 
colega diplomada e profissionalmente bem-sucedida. Nesta noite tem um sonho onde v o filho embarcando sozinho em um 
trem para uma viagem. No se recorda de outros detalhes, mas acorda angustiada. 
A interpretao deste sonho seria relativamente simples. Ao nvel da simbologia inconsciente, partir significa morrer. Este 
filho desperta sentimentos ambguos na me. Por um lado,  objeto de amor, e os valores introjetados no papel de me s 
permitem a manifestao de sentimentos amorosos e positivos na relao com a criana. Por outro, esse filho lhe destruiu 
muitas das aspiraes da vida. Bloqueou seus estudos e sua carreira profissional. Neste nvel, seu desejo seria o de no ter 
tido este filho, ou seja, h um desejo de morte do filho que est latente e reprimido. No sonho, enfraquecidas as defesas, ele 
surge. Mas, mesmo assim, no pode ser expresso abertamente. A capacidade plstica do inconsciente de utilizar smbolos 
substitutivos acaba encontrando um meio de realizar alucinatoriamente o desejo, sem que o sonhador o perceba. Tal qual 
nos atos falhos, o sonho fica uma criao intermediria entre o desejo reprimido (simbolicamente realizado) e as proibies 
morais, que aparentemente no so transgredidas. 
O sonho  um bom exemplo do simbolismo insconsciente. Alm de concretizar imagens, o sonho  um fenmeno normal e 
universal.  tambm um bom exemplo da formao de sintomas. Do conflito entre dois elementos, o desejo e a represso, 
surge uma soluo simblica intermediria que em parte satisfaz e em parte contraria a ambos. 
Os trabalhos clnicos tm comprovado a universalidade de muitos smbolos. A casa  representativa do corpo da me, ou 
seja, um lugar de proteo, onde h pessoas. As conchas so smbolos dos genitais femininos. Os objetos compridos 
(bengalas. postes) so em geral smbolos dos genitais masculinos. A gua est ligada  fantasia de nascer-renascer 
(observem os mitos ligados aos batismos). Cavalgar ou subir escadas so smbolos ligados ao ato sexual. Perdas de dentes 
simbolizam a castrao. 
2.8.3 Neurose e sintomas 
O modelo de aparecimento das neuroses e psicoses  similar  formao de sintomas descritos nos atos falhos e nos 
sonhos. Durante todo nosso processo de desenvolvimento, enfrentamos angstias com as quais teremos de lidar. Se 
falhamos neste processo, a represso desencadeada pelo Ego criar um ponto de fixao, ao qual estaremos sujeitos a 
retornar diante de novas crises, notada- mente as crises que possuam relaes com as fantasias ou desejos reprimidos. 
Achamos que agora poderemos entender melhor o caso de Ana O. A sua permanncia no leito de morte do pai foi um 
processo doloroso. Mas estar ali, cuidando do pai, exercendo o papel da me que estava ausente, fez com que fosse 
retomada uma antiga fixao no Complexo de dipo. Os pensamentos que querem surgir so ligados a um sentimento 
amoroso, no como filha, mas como a menininha que desejava o pai, que queria tomar 
o lugar de sua me. Este desejo incestuoso  um tipo de desejo que os valores morais no permitem suportar. Fica 
estabelecido o conflito entre o desejo (Id) e a proibio (Superego). O desejo que no pode surgir implica em um 
envolvimento corporal com o pai. Ns j vimos que a fantasia bsica de punio deste perodo  a castrao, portanto, o 
temor de um ataque corporal. Do conflito entre o desejo corporal e o temor de ataque corporal, surge o sintoma como um 
ponto de conciliao. Surge a paralisia que imobiliza. O corpo est simbolicamente punido (castrado) para impedir a 
manifestao da sexualjdade. Mas, na punio, est presente o desejo pelo pai. Todos estes processos so inconscientes. 
Ao nvel externo, apenas o sintoma aparece. A angstia do conflito no  vivida, O sintoma surge assim como um enigma, 
que simultaneamente atualiza, probe e encobre o desejo conflitivo. 
Os vrios quadros psicopatolgicos tm origem similar. Como um aprofundamento especfico em cada quadro, 
recomendamos as leituras das seguintes obras de Freud: Anlise da fobia de um menino de cinco anos (1909); 
Anlise de um caso de neurose obsessiva (1909) e Observaes psicanalticas sobre um caso de parania 
(1911). 
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2.9 Leituras recomendadas 
A coleo das obras completas de Freud  um acervo volumos Recomendaremos apenas algumas obras, que julgamos sejam 
faci1it doras para um contato preliminar com seu trabalho. As obr esto indicadas numa ordem didtica de leitura. 
Normalmente. 
obras completas esto apresentadas em ordem cronolgica, portani indicaremos apenas o ttulo e a data inicial de 
publicao. Coi estes referenciais, qualquer edio poder ser consultada. 
l.) Cinco lies de psicanlise (1910). Constitui-se de ui conjunto de cinco conferncias pronunciadas por Freud em 19l( na 
Clark University (Estados Unidos), para um pblico leigo ei psicanlise. E uma viso sinttica e clara do surgimento e d 
proposta clnica da psicanlise. 
2.a) ConJer,icias introdutrias  psicanlise (1916). E ui grupo de vinte e ilto conferncias proferidas por Freud a mdicc 
em 1916, num curso introdutrio  psicanlise. Tem o mrito d resumir seus principais trabalhos publicados. A primeira 
pari dedicada s parapraxias, sintetiza a Psicopatologia da vida cotidiana (1901). A segunda parte, dedicada aos sonhos,  
uma descri didtica dos aspectos fundamentais de A interpretao dos sonhos (1900). A terceira parte, dedicada s 
neuroses, engloba os Tr ensaios para uma teoria sexual (1905) e discute vrios de sei casos clnicos, bem como as novas 
descobertas nos processos d formao de sintomas. 
3.a) O Ego e o Id (1923). E o texto no qual Freud prop 
sua teoria definitiva sobre a formao das instncias psicodinmica 
da personalidade. 
4.) Anlise terminvel e interminvel (1937). Este textc escrito no perodo final da vida de Freud, faz uma retrospectiv 
crtica das possibilidades da psicanlise, sob a luz do incio 
trmino do trabalho clnico. Nele h tambm uma exposio muit didtica de sua teoria final dos instintos, onde ope os 
instintc de vida aos instintos de morte. 
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